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3 CD - 30/01/26

Comissão pune Ramón Díaz por ato discriminatório

30 de janeiro às 15:32

O técnico Ramón Díaz foi julgado nesta sexta-feira, 30 de janeiro, no Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol por falas discriminatórias em entrevista coletiva quando comandava o Internacional após partida contra o Bahia, válida pela 33ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro. Por unanimidade de votos, a Terceira Comissão Disciplinar puniu o treinador com seis partidas de suspensão e multa de R$50 mil por infração ao artigo 243-G. A decisão é em primeira instância e cabe recurso ao Pleno.

Ramón Díaz foi denunciado por violação do código 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que compreende a prática de ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.

Na ocasião, como técnico do Internacional, Ramón declarou em entrevista coletiva:

— “O futebol é para homens, não é para meninas, é para homens”

Em julgamento, após a apresentação de provas em vídeo, o técnico depôs:

— “Foi uma situação de muita pressão, isso não justifica o erro que cometi. Essa é a primeira vez que isso acontece em toda minha carreira. Foi uma declaração desafortunada e peço mil desculpas”

Durante a Sessão, o procurador Tairone Rosa reiterou o caráter discriminatório da fala:

— “Ao excluir as mulheres de pertencer ao universo do futebol, o denunciado praticou uma violência simbólica, que fere os princípios da moralidade, fere a ideia de fair play. Não foi um mero desabafo, teve um reforço de estigmas, de uma ideia de hierarquia de gênero. Em abril de 2024, quando exercia o cargo de treinador em outro clube, o mesmo denunciado afirmou, após uma decisão do VAR, que era complicado que no VAR tivesse que decidir uma mulher. Quando a gente analisa em conjunto esses episódios, me parece que o que emerge não é um deslize isolado, mas de fato um padrão discursivo consistente que associa a presença feminina no futebol à incapacidade, à uma inadequação.”

Em contrapartida, o advogado Francisco Balbuena sustentou em defesa de Ramón Díaz:

— “O treinador estava em um momento de grande pressão. Ele estava ali sendo entrevistado na entrevista coletiva, em Novembro, um mês antes do término do campeonato, ele estava sendo sabatinado com diversas perguntas. A gente sabe que em momentos de forte pressão, a gente não tem total discernimento do que tá falando, a gente não tem a tranquilidade de raciocínio de um ambiente como o que estamos aqui hoje, de um ambiente calmo, de um ambiente sem uma carga emocional forte. O treinador estava sentado em uma mesa respondendo a dezenas de repórteres. O treinador estava nesse ambiente de forte emoção e em momentos de forte emoção, a gente às vezes comete erros.”

Após ouvir as partes, o relator do processo, auditor Rafael Bozzano, destacou a carga histórica que agrava a problemática da fala e proferiu seu voto:

— “ A intenção, se houve ou não, ela acaba sendo superada pelo o que de fato ocorreu. Não há contexto, não há calor que atenue a palavra dita. Aqui a gente está falando de um profissional, como trazido pela defesa, um estrangeiro que mais títulos ganhou no Brasil, é esperado que um profissional desse tenha uma cautela e um equilíbrio para que uma coletiva de imprensa após terminado o jogo, já tomou água, já está no ar condicionado, que isso não passe de um calor para que condutas como essa e palavras como essas sejam proferidas. Da mesma forma, eu entendo que é extremamente válido, e levarei isso em consideração, o depoimento dele. Encaminho, então, para uma pena de suspensão por seis partidas cumulado com a multa de R$ 50 mil.”

Os auditores Marina Volpato, Thiago Peleja e a presidente Adriene Hassen acompanharam o voto do relator.

— “Pressão não justifica descriminação. A pressão que a gente vive a todo momento não justifica que a gente cometa um ato como esse que a gente viu. A gente luta diariamente para afastar estigmas que são reforçados por essa fala. Nem no Brasil, nem no futebol, nem na FIFA, não há lugar para esse tipo de fala … Futebol é lugar de mulher, futebol é o meu lugar, é o lugar da doutora Marina, é o lugar da Julyane, é o lugar da doutora Pamella, é o lugar de todas as mulheres que se envolvem com tanta, ou mais capacidade técnica que os homens que estão envolvidos” , acrescentou a presidente da Comissão, Adriene Hassen.

A sentença foi definida em primeira instância e cabe recurso ao Pleno do STJD.


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