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STJD: Discriminação contra árbitras
03/01/2022 14h10 | STJD

Divulgação / Site STJD
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Nos últimos quatro anos, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol julgou cinco denúncias relacionadas à discriminação de sexo. Um caso em cada ano desde 2018 e dois em 2021, todos contra árbitras. Os dados constam no Relatório Anual de 2021 e foram computados até o dia 8 de dezembro.

As denúncias foram feitas com base no artigo 243-G do CBJD, que fala em “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. A pena prevista no artigo é de cinco a 10 partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão de 120 a 370 dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural, além de multa de R$ 100 a R$ 100 mil.

Após o jogo entre Penarol e Fast Clube, que ocorreu no dia 22 de agosto de 2021, pela Série D, o presidente do Fast, Denis Cabral, foi até a porta do vestiário da equipe de arbitragem e disparou ofensas discriminatórias contra a árbitra assistente Anne Kesy Gomes de Sá, como a própria informou na súmula. O dirigente foi denunciado no artigo 243-G do CBJD. No dia 30 de setembro de 2021, a Terceira Comissão Disciplinar do STJD do Futebol suspendeu o dirigente por 30 dias e o multou em R $1 mil, desclassificando a conduta para o artigo 243-F, ofensa à honra. O Pleno reformou a decisão de primeira instância e puniu o presidente conforme pedido da acusação, no artigo 243-G, aplicando suspensão de 120 dias e multa de R$ 10 mil.

O Botafogo também foi denunciado pela ação de alguns torcedores contra a árbitra assistente no jogo contra o Brusque, na Série B do Brasileiro. Ao final da partida, o clube saiu em defesa de Katiuscia Mendonça. Denunciado por discriminação, o Alvinegro Carioca foi julgado pela Primeira Comissão Disciplinar no dia 29 de novembro de 2021 e punido com multa de R$ 10 mil no artigo 243-G.

Katiuscia Mendonça é árbitra há 21 anos. Começou em 1999, no curso de arbitragem da Federação de Futebol do Estado do Espírito Santo. Em 2000 estreou em competições regionais e em 2003 passou a integrar o quadro da CBF, quando ainda não existiam muitas mulheres na arbitragem. Katiúscia fez teste para FIFA em 2007 e passou. Hoje atua no quadro master da Confederação Brasileira de Futebol.

Em entrevista ao site do STJD, a árbitra assistente relatou o que aconteceu no jogo do Botafogo e explicou que foi a pior situação de discriminação em toda a carreira.

“Eu me equivoquei em um lance a favor do Botafogo, que o VAR me corrigiu, e o outro contra. Quando eu estava saindo do primeiro tempo para o vestiário, a torcida fez aquela cena ridícula. A equipe de arbitragem que estava comigo me deu uma força, porque foi horrível, um monte de homem e a torcida me chamando de nomes feios. A gente está ali para trabalhar. A gente tem família, a minha filha ficou sabendo, ficou super preocupada, porque está acontecendo muito ato de agressões físicas. Esse foi o que mais me machucou porque não precisava disso. O VAR me corrigiu na hora. Não teve prejuízo para o time, não teve nada. O futebol já modernizou e as pessoas não se encaixaram na evolução. Isso me machucou. Quando eu comecei a carreira e cometi bastante erros, eu chegava em casa ‘meu Deus, o que eu fiz? Prejudiquei um time…’ e ninguém podia corrigir aquilo, mas hoje não. Eu achei que nunca mais ia passar por isso. Já passei por tudo que você possa passar na arbitragem. Você acha que por ter 21 anos de carreira não vai acontecer, mas eles ainda discriminam a mulher em geral. Não é por estar iniciando, não ter experiência. Porque eles fazem isso. Eu quando comecei sofri muito. A discriminação é geral e eu fui lutando. Não imaginava que fosse assim com as pessoas mais experientes, mas já vi que é geral. Não adianta tapar o sol com a peneira porque o problema existe”, contou a assistente.

         

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 



Presidente do Botafogo se desculpa com Katiuscia após gritos da torcida
Foto: Divulgação / Botafogo

 

Ao mesmo tempo em que foi a pior ofensa sofrida na carreira, Katiuscia afirmou ter ficado surpresa com a atitude imediata do presidente do Botafogo, Durcésio Mello, que se desculpou pelas ofensas proferidas pela torcida do clube.

“Eu fiquei muito surpresa com a atitude do presidente, algo que eu nunca tinha visto, que não imaginei que alguém fosse fazer. Ele reconheceu, não está de acordo com aquele ato. E foi imediato, não foi nada planejado, um dia depois, ou depois do jogo. Pediu licença, se podia fazer a entrega da carta. Para mim, tudo aquilo que aconteceu morreu ali e acho que ficou de referência. Ele está de parabéns, que outras equipes façam o mesmo. Tenho 21 anos de profissão e nunca ninguém fez isso. Se é para prevenir alguma coisa adiante, não me interessa. O que me interessa é que ao término do jogo ele fez isso para mim e foi muito importante na altura da minha carreira. Ele me acolheu, me viu como profissional. Ele ainda falou que se eu precisasse de alguma coisa, a diretoria estava à minha disposição. Já passei muitas e pensei que nunca mais ia passar por isso e nunca imaginei que alguém fosse me pedir desculpa, porque a gente tá tão acostumado a ser xingado, a ser humilhado e ninguém fazer nada, então eu me senti muito bem”, elogiou Katiuscia.

Katiuscia Magalhães também falou do suporte que a Comissão de Arbitragem oferece aos árbitros e elogiou a postura combatente do STJD.

“É feito um trabalho com os árbitros para isso. Se cai, tem um momento ruim, você tem que ter força para levantar. A Comissão tem trabalhado muito isso com a doutora Marta Magalhães, psicóloga da Comissão de Arbitragem da CBF. A gente tem trabalhado muito no pilar mental e ela faz um trabalho espetacular. Me ajudou muito a superar a volta. A Comissão e o Tribunal estão de parabéns. A gente está muito seguro pela transparência que chega ao nível do futebol. Marta, todas as mulheres, todos os árbitros mandaram mensagens de apoio, junto com o trabalho da comissão nacional. A psicóloga é fundamental. Isso me ajudou muito, porque dormir com aquela coisa ruim, dá um buraco no estômago e ela ali me acalmou com uma simples mensagem. Logo na sequência a minha comissão do estado me apoiou muito. São essas coisas que fazem a gente se sentir forte, pra dar segmento na carreira”, elogiou Katiuscia.

 

 

 

 

 

 

 

 


Katiuscia no começo da carreira, em 2009, na final do Campeonato Mineiro entre Cruzeiro e Atlético.
Árbitra sofreu discriminação na partida. 
Foto: arquivo pessoal/Katiuscia Magalhães

 

A árbitra assistente finalizou destacando a diferença de tratamento dado a homens e mulheres na arbitragem.

“Os homens não são xingados dessa forma, então a mulher tem que ser mais forte e trabalhar mais. Eles acham que nos afetam, eles querem derrubar a gente, mas a gente é muito forte. A mulher quando está em uma profissão dessa já entra sabendo que pode acontecer de tudo, elogios, críticas. A vida de um árbitro de futebol não é só elogio. Você tem que estar preparado para receber um elogio e também de aceitar as críticas. Críticas são bem-vindas, discriminação não e a gente não pode aceitar. Se a gente começar a aceitar, vai virar um problema em campo. Já melhorou bastante. Continuar dando apoio à mulher em campo. Isso vem de cima para baixo. A partir do momento que quem me escala não me escala mais, é porque talvez esteja de acordo, mas isso não acontece. Você pode ver que as escalas continuam e eles acreditam no nosso trabalho. Antigamente não tinha essa transparência e hoje tem, então a gente está muito seguro”, finalizou.

Alício Pena Júnior, presidente interino da Comissão de Arbitragem da CBF, contou que essa questão é trabalhada tanto previamente quanto após cada caso, em apoio às árbitras. 

“No caso de discriminação e assédio moral, a Comissão dá instruções durante as atividades de preparação para as competições para que isso tudo seja citado em súmula para que o STJD determine se é algo passível de punição ou não. Isso na esfera da Justiça Desportiva. Já no nosso trabalho pessoal nós temos o pilar mental da CBF. Temos psicólogos a cargo das federações e temos nossa coordenadora nacional, que também dá todo apoio e suporte quando elas enfrentam alguma situação assim. Fazemos isso também na preparação prévia, porque a gente sabe que infelizmente isso acontece e vai seguir acontecendo”, falou o ex-árbitro.


As informações de cunho jornalístico produzidas pela Assessoria de Imprensa do STJD não produzem efeito legal.